terça-feira, 23 de outubro de 2012

Nativos Digitais


 Por
ChicOrtiz.


"...As crianças hoje nascem sabendo usar estas novas tecnologias. O meu filho mesmo, pequeno, é capaz de jogar usando meu celular e descobriu tudo sozinho, coisas que nem mesmo eu sei usar direito...". [anônimo].

A frase acima lhe soa familiar? Já a ouviu em algum lugar?

Então, para você talvez seja novidade descobrir que o jogo, o software que corre fluido pelos nossos aparelhos de última geração é, na maior parte das vezes, construído de forma truncada. Demora a ficar pronto, construí-lo está longe do que poderia ser um gestual liberto. Se é que algum dia pôde existir algum gesto assim mais verdadeiro.

Pode parecer estranho, mas as vezes temos um vislumbre desta cozinha bagunçada que é a criação de software: por exemplo, quando nosso vídeo favorito não toca mais. Quando perdemos uma agenda eletrônica de contatos, quando um antigo texto se torna uma sequência de hieróglifos egípcios misturados com símbolos de baralho, quando o chip ou o periférico antigos não funcionam em conjunto com nossa mais nova aquisição bugigangológica, quando jogamos na lata do lixo uma porção de disquetes, ou objetos que algum dia sei lá porque razão, julgamos importantíssimos em nossas vidas.

Porque é fácil confundir um objeto obsoleto com a obsolescência de nossa própria memória ou ainda
obsolescência de uma ideia que tivemos. Se confio em alguns objetos para que possam me auxiliar a lembrar, não deposito nestes objetos também, eventualmente, um pouco de minha própria auto-estima? Os elementos que adornam a lembrança de uma pessoa querida podem por uma fatalidade, no instante seguinte, servir para que o próximo ridicularize nossa nostalgia em público.

- Já repararam no apego de pessoas idosas por fotos preto e branco que cabem em carteiras?

Daí surge a responsabilidade: que conteúdo devem ter os mais novos quando o meio de aprender é a tecnologia? Que conteúdo é esse que na prática, deveria garantir parte da subsistência dos alunos mais adiante?

Pois é.  São alguns dos desafios de se educar tendo a tecnologia como meio. É muito fácil se deixar seduzir pela mesma não compreendendo camadas mais fundamentais do conhecimento, conhecimento esse que poderia levar a uma apropriação mais completa do objeto em si pelo indivíduo.

Ao adquirir um objeto tecnológico no comércio estamos longe de possuir alguma coisa: se não temos nem vaga ideia de como se dá a reprodução deste mesmo objeto, iniciamos esta relação no mínimo como troca desigual. Trocamos, ainda que disfarçada e imperceptivelmente, nossa riqueza natural mais preciosa por uma fração minúscula de riqueza intelectual. E pior ainda: na maior parte das vezes sem nos darmos conta...

E isso senhoras e senhores, não canso de repetir, tem sido ao longo de nossa história, invariavelmente, um mau negócio.

Chico Ortiz é arquiteto, desenvolvedor de tecnologias opensource e professor do curso 3D na Escola Projeto Vida.

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